SERES HUMANOS PROGRAMÁVEIS ?

Somos programas, somos e seremos programados...Estamos entrando na internet, mas não só. De muitas formas, estamos começando a nos (re)programar, o que cria possibilidades (e riscos) muito grandes. E no futuro próximo.A era da informação, segundo Peter Drucker, não começou com a informática ou a internet, mas antes, na Segunda Guerra Mundial. Até então, vivíamos a era da energia, ao redor da qual estavam centrados os negócios e a atividade científica, tecnológica e inovadora.
As palavras de ordem eram mais forte, mais rápido, mais potente, num universo de pressões, temperaturas e velocidades. O domínio da tecnologia nuclear e a possibilidade de simular processos estelares deram um ar de fim-da-história ao mundo da energia e, a partir daí, os processos biológicos passaram a dominar o cenário e estes, apesar de baseados em energia, estão organizados ao redor de informação e seu processamento.Nós, não por acaso, somos sistemas biológicos de muito alta complexidade.
Sendo sistemas biológicos, somos organizados ao redor de informação e seu processamento, o que afeta cada pensamento e ação de qualquer ser humano. Como estamos há algum tempo falando de futuro, talvez fosse interessante investigar quais são os horizontes (humanos) de intervenção e modificação nos subsistemas "naturais" que nos compõem. Nem pense o leitor que arriscarei uma resposta. Ao invés, usarei um exemplo recente para discutir que tipo de "mods", ou modificações, podemos introduzir em nossos corpos e vidas "naturais" e, usando por base a história de intervenções que estamos fazendo há séculos, deixarei a pergunta em aberto, para cada um pensar e responder como quiser.Três quartos da população do planeta têm problemas de visão mais de 30% são míopes e quase 20% têm astigmatismo.
Há dois mil anos, não era possível corrigir a visão, na prática, mas já havia tentativas várias; os primeiros óculos, mais ou menos na forma em que conhecemos hoje, foram feitos na Itália, no século 13. Hoje ninguém está nem aí para quem usa óculos ou não e eles são um auxílio estático elementar para a visão, usados em massa. Na Idade Média, podem ter mandado muitos à fogueira, pelo "uso de instrumentos do demônio para tentar interferir nos desígnios divinos". Não ver bem não é um castigo dos céus, é resultado da forma como uma parte do nosso corpo processa luz; óculos (e depois, lentes de contato) são "mods" aos quais nos acostumamos com o tempo e que se tornaram, inclusive, moda.
Até aí, tudo bem. Óculos são apêndices externos ao corpo e -- tirando, por enquanto, aqueles das forças especiais -- passivos. Mas que tal pensar em modificar coisas complexas como o sono? Um artigo sobre o assunto, na revista New Scientist, começa com Modafinil, droga que não está à venda no país e que, tomada antes de dormir, transforma um sono de 4-5 horas (ou menos, para alguns) em um descanso correspondente a 8-10 horas de boa cama. Este tipo de "mod", resultado do uso de drogas que reprogramam funções corporais, pode ser muito relevante para quem trabalha com conhecimento (porque quase sempre tem um projeto atrasado pra entregar), soldados, gente que quer estar atenta, pra quem precisa fazer hora extra ou simplesmente pra quem quer "viver" muito mais, ou seja, dormir muito menos.Claro que drogas como esta não são as primeiras a nos modificar ou reprogramar: pense em anticoncepcionais, em uso há décadas.
Ou em AAS, cujo princípio ativo é conhecido há séculos e que usamos para reprogramar os receptores que nos dão a sensação de dor de cabeça. A diferença, agora, é que uma gama de medicamentos está sendo desenvolvida usando informática como auxílio essencial e pensando no corpo humano -- incluindo o cérebro -- como uma "máquina" programável. Veja o que diz Russell Foster, biólogo do sono do Imperial College London: "quanto mais entendermos sobre o relógio de 24 horas do corpo, mais seremos capazes de mudá-lo... em 10 ou 20 anos seremos capazes de desligar o sono usando fármacos..." Mas... será que vai ser bom -- ou melhor -- viver sem dormir? Você iria querer tal "reprogramação"?Modafinil está no mercado há sete anos e vende mais meio bilhão de dólares de pílulas por ano, tornando-se uma droga de "estilo de vida" para uma quantidade cada vez maior de pessoas.
Outras substâncias ainda mais poderosas estão a caminho: CX717, inicialmente desenvolvida para ajudar pacientes do mal de Alzheimer, está sendo considerada pela Defense Advanced Research Projects Agency (Darpa) como um mecanismo para manter soldados acordados e alertas por muito tempo. Testes em macacos mostram níveis de atividade, em macacos "drogados" que não dormem há 36 horas, acima de macacos não tratados e que dormiram normalmente.Modificar o ciclo de sono é apenas a porta das possibilidades de programação do cérebro. Cada remédio destinado a funções cerebrais liga, desliga, minimiza ou magnifica a ação de receptores de algum tipo. Mas pode ser que "tomar remédio" seja, em futuro próximo, coisa de um passado distante. Nos laboratórios, há novidades: dc brain polarisation, ou polarização do cérebro usando corrente contínua, por exemplo, é uma técnica para tentar controlar regiões do cérebro com hardware que pode ser embutido num capacete, usado por pilotos, soldados e… por você mesmo, no escritório, fábrica ou balada.
Os efeitos são melhoria de fluência verbal, atenção, memória e tempos de reação motora. E controle das áreas responsáveis pelo sono. Como acessório de moda, vai ficar esquisito e terá que ser usado com muito cuidado: quando a bateria acabar, seja lá o que você estiver fazendo, poderá cair duro de sono. O que pode ser o ponto de partida para os próximos níveis de "programação"... como fazer com que o cérebro se reprograme de maneira mais permanente para uma ou outra função, como dormir menos. O cérebro humano contém um número imenso de neurônios, que formam redes cujas capacidades aprendemos a admirar nos últimos milênios. Admiramos mas, em sua maior parte, ainda não entendemos. O fabricante de Modafinil ainda não publicou o que sabe (ou não) sobre seu funcionamento.
Há quem diga que é um acaso. Mas estamos para saber muito mais e isso terá pelo menos duas conseqüências: a tentativa de criar inteligências parecidas com a nossa e o aumento da capacidade de nos programarmos, que acontecerá bem antes e criará possibilidades muito mais amplas do que as permitidas pelas limitadas alternativas químicas que usamos hoje.Vai demorar? Vai. Quanto? Algumas décadas, talvez. Enquanto isso, é esperar para Modafinil e similares aparecerem (legalmente) por aqui... e ficar imaginando o que gostaríamos de ter, ou programar, a mais ou a menos, em nossas limitadas funções cerebrais...
